terça-feira, 25 de julho de 2023

As Peças

     A vida nos prega peças, ou talvez eu só seja azarada mesmo.

Um sentimento

     Mesmo tentando continuar, seguir em frente, aquelas recaídas acontecem.

    Desta vez, estávamos em uma construção, era nossa casa e ao mesmo tempo um escritório de redação de roteiros. Então Hele estava sentado na calçada, despreocupado, junto de alguém. Usava sua habitual camisa branca e agora um óculos fundo de garrafa, o que o deixou muito engraçado. Ao lado da nossa casa ficava a dele, e o estranho é que nunca havíamos nos visto antes, mas como Hele vivia viajando era explicável.

    Em um certo momento, tive que ir chama-lo para uma reunião. o Quinta da sua casa também estava em reforma e materiais de construção viraram o parque de diversão do Dali. Quando nos vimos o primeiro olhar que ele me deu foi :"O que você está fazendo aqui?". Não era só raiva, era raiva por que não podíamos nos ver, e eu também sentia isso, e nunca tínhamos nos vistos, nesta vida.

    Um pouco insegura e tentando evitar seu olhar perguntei: "Como está o seu português?" ao que ele responde na mesma língua: "Bem.". Minha cadela chegou e depois de vasculhar o quintal veio ao meu encontro, quase da minha altura, ela coloca o focinho no meu peito e eu acaricio suas orelhas olhando de soslaio para Hele e em troca me olhava intrigado e curioso: "Há quanto tempo mora aqui? Eu moro aqui há 6 anos.", perguntei tentando adivinhar seus pensamentos "Eu moro aqui há 8 anos", seu sorriso de inicio sarcástico convencido de que ganhou algo foi sumindo e ficando triste.

    Tudo foi tão rápido, mas os sentimentos não ditos falaram mais alto. queríamos estar ali, mas não devíamos. Quando eu ia dizer o por que fui lá... levantei um pouco... não assustada, mas confusa e triste. Foi tão bom ouvir ele falar comigo, e ao mesmo tempo que espero que isso aconteça novamente eu não quero.